Na cotação da montagem de uma placa eletrônica, o fabricante costuma oferecer dois modelos: o turn key, em que ele compra todos os componentes e entrega a placa pronta, e o consignado, em que a empresa envia o material e paga apenas o serviço. A diferença de preço entre as duas propostas costuma ser grande, e a tentação de escolher a mais barata também.
Mas escolher turn key ou consignado é definir quem carrega o estoque, quem responde pela falta de uma peça e quanto tempo a equipe interna vai gastar com compras. Esses fatores pesam mais no resultado do que o preço unitário da montagem.
Turn key ou consignado: qual a diferença?
Na fabricação turn key, o fabricante contratado, chamado de EMS, assume a compra de todos os itens da Bill of Materials (BOM). Ele cota, negocia, recebe, inspeciona, armazena e monta. O cliente recebe a placa testada e paga um preço único que inclui material e serviço.
Na montagem consignada, a empresa compra os componentes por conta própria e envia ao fabricante um kit para cada lote. O EMS confere o material, monta e devolve as placas. A responsabilidade pela disponibilidade, pela procedência e pela qualidade dos componentes permanece com o cliente.
E entre os dois extremos existe o modelo parcial, em que o cliente fornece alguns itens, normalmente os críticos ou exclusivos, e o fabricante compra o restante. É uma configuração comum em produtos com componentes de fonte única ou com acordos de preço já negociados pelo cliente.
O quadro abaixo resume como os dois modelos se comparam nos critérios que mais pesam na decisão. Cada um deles é detalhado nas seções seguintes.
| Critério | Turn key | Consignado |
| Quem compra os componentes | O fabricante (EMS) | A empresa contratante |
| Preço na cotação | Material e serviço no mesmo valor | Apenas o serviço de montagem |
| Prazo de entrega | Menor, com a compra feita pelo fabricante | Maior, porque a montagem depende do kit completo |
| Capital de giro | Componentes embutidos no preço da placa | Componentes pagos semanas ou meses antes do faturamento |
| Risco de suprimento | Assumido pelo fabricante | Assumido pela empresa |
| Responsabilidade pelo componente | Única, do fabricante | Dividida entre cliente e fabricante |
| Documentação fiscal | Uma nota por entrega | Remessa, retorno e industrialização a cada lote |
Por que o consignado parece mais barato
No modelo turn key, o preço inclui a margem do fabricante sobre os componentes, que remunera o trabalho de compra, o capital imobilizado e o risco de estoque. No consignado essa margem desaparece da cotação, e a montagem passa a custar apenas o serviço.
Segundo o levantamento da PCBinq com base em mais de 500 projetos indica que um lote de 100 placas com 85 itens distintos consome de 18 a 24 horas de engenharia e suprimentos no modelo consignado, e de 2 a 4 horas no turn key. Esse estudo aponta também que os dois modelos chegam a um custo total equivalente entre 100 e 250 unidades, quando essas horas entram na conta.
O consignado tende a ser vantajoso em volumes maiores, desde que a empresa tenha uma área de compras estruturada, com fornecedores homologados e poder de negociação próprio. Sem essa estrutura, a economia na cotação costuma se perder no caminho.
Os 4 custos que ficam fora da cotação
O primeiro custo que fica fora da cotação é a perda de processo. Isso porque, as máquinas de inserção automática descartam parte dos componentes durante o setup e a colocação, sobretudo os passivos pequenos. Por isso, o fabricante pede uma quantidade extra de cada item. No modelo turn key essa margem é problema do EMS. No consignado, se o kit chega com a quantidade exata, a linha para antes de completar o lote.
O segundo é o lote mínimo de compra. Os distribuidores vendem muitos componentes em rolos de milhares de unidades e aqueles que compram para um lote de 300 placas ficam com sobras que viram estoque parado no balanço. Mas, um fabricante que atende a vários clientes consegue diluir essas quantidades entre seus projetos.
O terceiro é o capital de giro. No modelo consignado, a empresa paga os componentes semanas ou meses antes de faturar o produto, e esse prazo cresceu com o aumento do lead time de componentes eletrônicos. O caso da memória RAM, que tratamos em Falta de memória RAM em 2026, mostra como um único item pode exigir compra antecipada e imobilizar caixa.
E o quarto custo é o kit incompleto. Basta faltar um item para que o lote inteiro aguarde. A linha reservada fica ociosa, o fabricante remaneja a programação e a nova data pode ficar dias ou semanas depois. Esse efeito está entre os fatores que detalhamos em 7 fatores que impactam o lead time na montagem de placas eletrônicas.
A soma desses fatores aparece no prazo de entrega. Nos dados publicados pela PCBinq, lotes de 5 a 25 protótipos ficaram prontos em 12 a 15 dias no turn key, contra 28 a 35 dias no consignado. Em lotes de 50 a 100 unidades, a comparação foi de 14 a 18 dias contra 25 a 32 dias. No consignado, o prazo do fabricante só começa a contar quando o último componente chega, e o tempo que a equipe interna gasta cotando, comprando e conferindo o kit fica fora da data informada na proposta.
De quem é a responsabilidade quando o problema é o componente
No modelo turn key, a responsabilidade é única. Se um componente falha, chega fora de especificação ou atrasa, o fabricante é o responsável. Ele compra em canais autorizados, mantém a rastreabilidade de lote e data de fabricação e documenta a conformidade com normas como a RoHS.
No consignado, a responsabilidade é dividida. O EMS responde pela montagem, e o cliente responde pelo material. Quando uma placa apresenta defeito, a primeira discussão costuma ser sobre a origem do problema, e essa análise consome tempo das duas partes. O risco aumenta quando a empresa recorre ao mercado independente para cobrir uma falta, porque ali se concentra a maior incidência de componentes falsificados.
Em setores regulados, essa divisão tem peso adicional. Na área médico-hospitalar, a qualificação de fornecedores é exigência da ANVISA, como explicamos em Fornecedores qualificados no setor médico-hospitalar. Quem consigna material passa a responder pela qualificação de cada distribuidor de onde comprou.
A gestão da BOM ao longo da vida do produto
A compra não termina no primeiro lote. Itens saem de linha e prazos mudam. No consignado, o monitoramento do ciclo de vida de cada part number fica com a empresa, que costuma descobrir a descontinuação pelo distribuidor quando a janela de compra já fechou. No turn key, esse acompanhamento faz parte da rotina do fabricante, como mostramos em Componente obsoleto na produção.

A questão fiscal no Brasil
Os dois modelos também têm tratamento fiscal diferente. No consignado, o envio dos componentes ao fabricante é feito como remessa para industrialização por encomenda, com nota fiscal de envio, nota de retorno do material aplicado e nota do serviço de industrialização. Cada lote gera esse conjunto de documentos, e divergências de quantidade entre remessa e retorno precisam ser conciliadas.
No turn key, a operação é uma compra de produto industrializado, com uma única nota por entrega. Para empresas que usufruem de incentivos ligados à produção local, como os regimes vinculados ao Processo Produtivo Básico, o modelo escolhido pode influenciar o enquadramento. A análise deve ser feita com a contabilidade e com o fabricante antes da decisão.
Qual modelo faz sentido para o seu negócio hoje
O melhor modelo para o seu negócio irá depender de volume, estrutura interna, perfil da BOM e exigências regulatórias. Mas os cenários mais comuns são:
- Consignado. Empresas com área de compras estruturada, volumes altos, contratos diretos com fabricantes de componentes ou itens proprietários que só elas podem adquirir.
- Turn key. Empresas sem equipe dedicada a suprimentos, produtos com muitos itens distintos, volumes baixos ou médios, prazos curtos de lançamento e setores que exigem rastreabilidade documentada.
- Parcial. Produtos em que poucos itens concentram o valor ou o risco da BOM. O cliente compra esses itens e o fabricante cuida do restante.
A decisão também pode mudar ao longo da vida do produto. Um lançamento costuma começar em turn key para ganhar velocidade e migrar para um modelo parcial quando o volume justifica negociação direta de alguns itens.
Como avaliar se o fabricante tem estrutura para comprar por você
Terceirizar a compra só reduz risco quando o fabricante tem estrutura para isso. Vale verificar se ele compra em canais autorizados, como inspeciona o material recebido, como trata perdas de processo e se acompanha o ciclo de vida dos itens. A mesma lógica de custo total que discutimos em Montagem SMT terceirizada ou linha própria se aplica aqui.
Na Enterplak, a engenharia e a área de suprimentos avaliam a BOM antes da proposta, identificam itens de fonte única ou em risco de descontinuação e programam as compras de acordo com a previsão de demanda do cliente. A recomendação do modelo de compra parte do perfil de cada projeto. A análise de fabricabilidade feita nessa etapa, descrita em DFM no layout de PCB, também indica componentes que podem ser trocados por equivalentes mais disponíveis.
Está avaliando o modelo de compra para o seu próximo projeto?
Envie a lista de materiais e receba uma proposta comparando turn key, consignado e parcial.
Perguntas frequentes sobre turn key e consignado
Qual a diferença entre turn key e consignado?
No turn key, o fabricante compra todos os componentes da BOM, monta e entrega a placa pronta, com material e serviço no mesmo preço. No consignado, a empresa compra os componentes, envia o kit ao fabricante e paga apenas a montagem.
O consignado é sempre mais barato?
O preço da montagem é menor, mas o custo total nem sempre. Entram na conta as horas internas de compras e engenharia, as perdas de processo, as sobras de lote mínimo, o capital de giro e os atrasos por kit incompleto. Em volumes baixos e médios, esses fatores costumam anular a diferença.
Por que o fabricante pede componentes a mais no consignado?
Porque a montagem automática descarta parte das peças no setup e na colocação, principalmente os passivos pequenos. Sem essa margem, o lote para antes de ser concluído. No turn key, essa quantidade extra é responsabilidade do fabricante.
O modelo de compra muda a parte fiscal da operação?
Sim. O consignado envolve remessa para industrialização por encomenda, com notas de envio, retorno e serviço a cada lote. O turn key é tratado como compra de produto industrializado. Empresas com incentivos fiscais vinculados à produção devem avaliar o enquadramento com a contabilidade.
Referências
- PCBinq. PCB Engineer’s Guide to Turnkey vs. Consigned Assembly: Cost Analysis from 500+ Projects. https://www.pcbinq.com/turnkey-vs-consigned-assembly-cost/
- EST. Turnkey vs Consigned Manufacturing for High-Reliability Electronics. https://est.com/turnkey-electronics-manufacturing-when-and-why-its-the-right-choice/

José Benedito Santos Costa é supervisor de produção na Enterplak, empresa sediada em Santa Rita do Sapucaí (MG), o Vale da Eletrônica. Com mais de 20 anos de experiência em manufatura eletrônica, coordena equipes e processos produtivos, atuando na melhoria contínua de linhas de montagem, controle de qualidade e cumprimento de prazos. No blog, compartilha aprendizados práticos sobre produção industrial e gestão de operações.